segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sem questões

Não há como esperar que algo de bom nos aconteça de repente. Isso tudo é ilusão. Não sei mais em que acreditar, em que posso confiar; o que ou quem será meu porto seguro... Sei apenas que tudo isso depende exclusivamente de mim, já que me sinto completamente só deste lado do planeta. No entanto, não será a dor do poeta uma invenção de sua cabeça? Ou será que Rousseau estava certo ao dizer que a sociedade é quem nos corrompe? Será que a sociedade nos oprime, e nada podemos fazer, como dia Durkheim? Há um sem número de questões referentes à nossa existência que estão por ser respondidas há séculos. Mas ainda busco uma utilidade para o conhecimento em minha vida. E apesar de tudo, eu quero mais é viver...

Novembro/2010.

Basta querer?

O que há em nós quando não queremos o bastante? Há dias em que estou confuso quanto ao que quero, e tudo o que faço parece ser uma grande mentira. Jamais quero mentir pra mim mesmo novamente, como menti muitas e muitas vezes... Eu não quero mais estar confuso; eu quero saber o que eu quero, tenho direito de saber! Por que seria assim, tão difícil de compreender? Será que devo simplesmente andar em direção à vida, despreocupado, para ver no que vai dar, e assim, de repente, uma resposta virá? Talvez eu deva experimentar os sabores da vida sem nenhum propósito, para que assim eu possa descobrir qual é o meu verdadeiro propósito.

(Semanas atrás).

Fazer arte

Fazer arte pressupõe o reconhecimento da fealdade do mundo, e a sua busca é a da beleza e da perfeição, inexistentes em nossas vidas e indispensáveis à plenitude humana. Todo homem carrega uma dúvida: um não-saber generalizado que finda em si mesmo, numa confusão de sentidos. A tomada de consciência desse não-saber, provoca em nós o movimento interno do desejo da busca por respostas sobre a existência. Essa busca, se se torna constante, torna-se igualmente necessária, e pode levar ao homem a um estado de espírito superior ao qual se encontrava até então. O caminho da arte sempre foi o caminho do auto-conhecimento; e neste caminho, jamais pode haver um fim. Talvez eu não saiba aonde quero chegar, mas sei com toda certeza aonde não quero ficar. "Conhece-te a ti mesmo" (Sócrates).

13/02/11, madrugadas da vida.

O dia em que me tornei um alien

Me sinto como um alienígena. Por onde passo sinto o peso dos olhares desconfiados sobre mim, como se eu fosse um homem-bomba, prestes à explodir. Desgraça! Que gosto de derrota sinto em meus lábios, sempre fechados... E em momentos de distração, vejo milhares de imagens desconexas passando em meus pensamentos; velhos fantasmas que me roubam a paz. Aquela força primitiva que há muito me impulsionara em minha busca por respostas, hoje se extinguiu. Não vejo saída. Estamos todos condenados a essa condição de liberdade, capaz de destituir todo valor, crença, garantia, de um ser que se vê no fim de tudo, desprovido de qualquer sentido para existir. Mas comigo é diferente... Assim me sinto: como um alienígena.

28/09/2010, uma tarde qualquer, no fundo da biblioteca...

Momento na escada

Esta carta é fictícia, muito embora sua inspiração realmente ocorreu, na véspera de sua escrita.

Carta ao namorado.

Decidi quebrar as promessas que me confiou. Não seria justo apenas eu seguir nossos planos. Sei que mais uma vez não as cumpriu. Junto a um amigo, em sua ausência, conversamos sobre muitos assuntos da vida. Lhe contei sobre um sonho que tive, no qual você não viera me ajudar quando mais precisei. Acrescentei, com todo ânimo, que um dia escreverei um conto sobre o que sonhei. Ele gostou, me compreendeu, e até riu de minhas manias e modos de me expressar. Quando me perguntou de você fiquei meia sem jeito: respondi apenas que não sabia, mas que ainda gosto de você. Esse meu amigo se interessa pelas minhas loucuras e manias; ele me ouve falar olhando atentamente em meus olhos, demonstrando com sinceras expressões o que sente e pensa a respeito. Ele me ouve, e não abre a boca para falar nada que não tenha significado para mim no momento em que preciso dele...

(Novembro/2010)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Um espírito livre

Não vim reinar nem vim servir.
Só quero é luz, sonhar em vida.
Driblar a morte, curar ferida.
E ao novo norte, nova partida
Seguir avante o que há de vir.

Destinos do Esmeralda

Episódio I: Brilho nos olhos.

Era 12 de Janeiro de 2011. Eu e meu primo havíamos combinado de ir a um café da cidade comemorar a companhia um do outro – e é claro, para ver uma antiga amiga nossa que lá trabalha. Antes de irmos eu passei na casa dele. Ouvimos música, conversamos um pouco sobre alguns artistas favoritos e depois fomos caminhando até o ponto. No ônibus conversamos sobre diversos assuntos, dentre os quais o favorito era religião – viagem astral, magia, espiritismo. E assim foi o caminho todo, até chegarmos em nosso destino.
Por volta das 20:15 estávamos em nosso destino, mas então decidimos passar antes no shopping Esmeralda. No meio do caminho um rapaz mal vestido e mal cheiroso, de estatura baixa e pele morena, e que calçava chinelos de dedo, nos parou e começou a contar sua história. Seu nome era Alex e ele era havia acabado de sair da prisão de Dracena, no dia dois de Janeiro de 2011. Alex nos mostrou um documento oficial que comprovasse a veracidade de sua história. Disse que precisava de ajuda com algumas moedas para viajar para Bauru. O motivo de sua viagem é que lá ele teria que pagar mais um ano e meio de serviços comunitários; o rapaz já estava atrasado, posto que deveria ter se apresentado às 16h do mesmo dia.
Alex nos disse que tentou ir até a delegacia de polícia de Marília para comunicar seu possível atraso por falta de dinheiro, mas sem sucesso. Os oficiais mandaram ele pedir ajuda à Assistência Social. Sem sucesso novamente. A responsável afirmou que não tinha verba naquele dia para ajudá-lo. “A sociedade paga imposto à prefeitura para que eles ajudem gente como eu”. Já não tinha porque desconfiar do rapaz. Ele nos disse estar tremendo de nervoso, pois nunca havia pedido dinheiro antes.
Alex nos disse que agente poderia gastar nosso dinheiro com qualquer coisa, menos com drogas. “Isso acaba com a vida de qualquer um”. Meu primo Lucas abriu sua carteira e deu ao rapaz uma nota de cinco reais: “Agente ir gastar mesmo, toma ai mano”. Os olhos dele brilharam de alegria, que se tornou uma confusão entre agradecimentos e expressões de surpresa. Eu não lhe dei nada, pois o dinheiro já estava contado.
            Lucas perguntou ao rapaz se já conseguiria pegar o ônibus que vai de Marília à Bauru. Alex disse que a passagem custava onze reais, juntou todo o dinheiro e começou a contar. Disse com otimismo que até às 22:30 h conseguiria o dinheiro para a passagem. De repente meu primo abriu a carteira novamente e lhe deu mais dez reais: “Toma, pega lá o seu busão!”. O rapaz arregalou os olhos e quase chorou de alegria. Sua voz havia mudado, e ele nos disse nunca ter encontrado alguém como agente antes, e que nós fomos os segundo a para pra lhe ouvir. Disse-lhe que agora poderia comer algo antes de ir embora, e ele agradeceu a Deus.
            Aquela foi a primeira vez que eu vi verdade e honestidade em um homem que eu não conheço, e que está por aí, pedindo dinheiro. Na maioria das vezes é para beber. Alex foi honesto, e penso que para ele isso tenha feito bem.
            Alex virou para mim e perguntou: “Vocês são amigos há muito tempo?” Disse-lhe que éramos primos. “Se Deus fez um primo melhor que o seu, guardou para ele! Meu, cuida bem desse cara, amigo melhor você não pode ter!” Senti orgulho de meu primo. Em vinte anos de estrada, estava ali uma atitude memorável de um homem que eu sempre soube que tinha bondade no coração.
            Ao nos despedirmos, Alex disse que só não daria um abraço em meu primo por causa de seus trajes, seu cheiro, sua condição. “Que isso mano, vem cá”, disse meu primo, abrindo os braços para o rapaz, em um abraço triunfal. O rapaz saiu gritando e cantando a Deus por ter nos encontrado em seu caminho.
            Chegamos ao shopping Esmeralda, entramos, damos algumas voltas. Percebemos que tudo estava igual à semana passada: os mesmos filmes em cartaz, a mesma quantidade de gente andando e olhando para as vitrines, e nada de novo, nada de interessante. Depois de um tempo, percebemos que fomo lá para nada, pois o que nosso Destino havia nos reservado, já tínhamos cumprido momentos antes, e ainda estávamos pensando nisso.
Ao voltarmos para o café, paramos e refletimos. “Se tivéssemos parado aqui antes, nada daquilo teria acontecido. Agente queria ir ao shopping para nada! O shopping foi um pretexto que o Destino nos colocou naquele pequeno instante para que encontrássemos aquele rapaz no caminho. Esse foi o nosso Destino. E o nosso premio foi ver os olhos daquele rapaz brilharem de alegria”.
            E então, naquela simples noite de terça-feira, aprendemos a dar ouvidos àqueles que não têm voz. Aprendemos, na prática, que uma ação vale mais que mil palavras.

Victor Bispo Zanata
14 de Janeiro de 2011, 1:22h.