segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Momento na escada

Esta carta é fictícia, muito embora sua inspiração realmente ocorreu, na véspera de sua escrita.

Carta ao namorado.

Decidi quebrar as promessas que me confiou. Não seria justo apenas eu seguir nossos planos. Sei que mais uma vez não as cumpriu. Junto a um amigo, em sua ausência, conversamos sobre muitos assuntos da vida. Lhe contei sobre um sonho que tive, no qual você não viera me ajudar quando mais precisei. Acrescentei, com todo ânimo, que um dia escreverei um conto sobre o que sonhei. Ele gostou, me compreendeu, e até riu de minhas manias e modos de me expressar. Quando me perguntou de você fiquei meia sem jeito: respondi apenas que não sabia, mas que ainda gosto de você. Esse meu amigo se interessa pelas minhas loucuras e manias; ele me ouve falar olhando atentamente em meus olhos, demonstrando com sinceras expressões o que sente e pensa a respeito. Ele me ouve, e não abre a boca para falar nada que não tenha significado para mim no momento em que preciso dele...

(Novembro/2010)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Um espírito livre

Não vim reinar nem vim servir.
Só quero é luz, sonhar em vida.
Driblar a morte, curar ferida.
E ao novo norte, nova partida
Seguir avante o que há de vir.

Destinos do Esmeralda

Episódio I: Brilho nos olhos.

Era 12 de Janeiro de 2011. Eu e meu primo havíamos combinado de ir a um café da cidade comemorar a companhia um do outro – e é claro, para ver uma antiga amiga nossa que lá trabalha. Antes de irmos eu passei na casa dele. Ouvimos música, conversamos um pouco sobre alguns artistas favoritos e depois fomos caminhando até o ponto. No ônibus conversamos sobre diversos assuntos, dentre os quais o favorito era religião – viagem astral, magia, espiritismo. E assim foi o caminho todo, até chegarmos em nosso destino.
Por volta das 20:15 estávamos em nosso destino, mas então decidimos passar antes no shopping Esmeralda. No meio do caminho um rapaz mal vestido e mal cheiroso, de estatura baixa e pele morena, e que calçava chinelos de dedo, nos parou e começou a contar sua história. Seu nome era Alex e ele era havia acabado de sair da prisão de Dracena, no dia dois de Janeiro de 2011. Alex nos mostrou um documento oficial que comprovasse a veracidade de sua história. Disse que precisava de ajuda com algumas moedas para viajar para Bauru. O motivo de sua viagem é que lá ele teria que pagar mais um ano e meio de serviços comunitários; o rapaz já estava atrasado, posto que deveria ter se apresentado às 16h do mesmo dia.
Alex nos disse que tentou ir até a delegacia de polícia de Marília para comunicar seu possível atraso por falta de dinheiro, mas sem sucesso. Os oficiais mandaram ele pedir ajuda à Assistência Social. Sem sucesso novamente. A responsável afirmou que não tinha verba naquele dia para ajudá-lo. “A sociedade paga imposto à prefeitura para que eles ajudem gente como eu”. Já não tinha porque desconfiar do rapaz. Ele nos disse estar tremendo de nervoso, pois nunca havia pedido dinheiro antes.
Alex nos disse que agente poderia gastar nosso dinheiro com qualquer coisa, menos com drogas. “Isso acaba com a vida de qualquer um”. Meu primo Lucas abriu sua carteira e deu ao rapaz uma nota de cinco reais: “Agente ir gastar mesmo, toma ai mano”. Os olhos dele brilharam de alegria, que se tornou uma confusão entre agradecimentos e expressões de surpresa. Eu não lhe dei nada, pois o dinheiro já estava contado.
            Lucas perguntou ao rapaz se já conseguiria pegar o ônibus que vai de Marília à Bauru. Alex disse que a passagem custava onze reais, juntou todo o dinheiro e começou a contar. Disse com otimismo que até às 22:30 h conseguiria o dinheiro para a passagem. De repente meu primo abriu a carteira novamente e lhe deu mais dez reais: “Toma, pega lá o seu busão!”. O rapaz arregalou os olhos e quase chorou de alegria. Sua voz havia mudado, e ele nos disse nunca ter encontrado alguém como agente antes, e que nós fomos os segundo a para pra lhe ouvir. Disse-lhe que agora poderia comer algo antes de ir embora, e ele agradeceu a Deus.
            Aquela foi a primeira vez que eu vi verdade e honestidade em um homem que eu não conheço, e que está por aí, pedindo dinheiro. Na maioria das vezes é para beber. Alex foi honesto, e penso que para ele isso tenha feito bem.
            Alex virou para mim e perguntou: “Vocês são amigos há muito tempo?” Disse-lhe que éramos primos. “Se Deus fez um primo melhor que o seu, guardou para ele! Meu, cuida bem desse cara, amigo melhor você não pode ter!” Senti orgulho de meu primo. Em vinte anos de estrada, estava ali uma atitude memorável de um homem que eu sempre soube que tinha bondade no coração.
            Ao nos despedirmos, Alex disse que só não daria um abraço em meu primo por causa de seus trajes, seu cheiro, sua condição. “Que isso mano, vem cá”, disse meu primo, abrindo os braços para o rapaz, em um abraço triunfal. O rapaz saiu gritando e cantando a Deus por ter nos encontrado em seu caminho.
            Chegamos ao shopping Esmeralda, entramos, damos algumas voltas. Percebemos que tudo estava igual à semana passada: os mesmos filmes em cartaz, a mesma quantidade de gente andando e olhando para as vitrines, e nada de novo, nada de interessante. Depois de um tempo, percebemos que fomo lá para nada, pois o que nosso Destino havia nos reservado, já tínhamos cumprido momentos antes, e ainda estávamos pensando nisso.
Ao voltarmos para o café, paramos e refletimos. “Se tivéssemos parado aqui antes, nada daquilo teria acontecido. Agente queria ir ao shopping para nada! O shopping foi um pretexto que o Destino nos colocou naquele pequeno instante para que encontrássemos aquele rapaz no caminho. Esse foi o nosso Destino. E o nosso premio foi ver os olhos daquele rapaz brilharem de alegria”.
            E então, naquela simples noite de terça-feira, aprendemos a dar ouvidos àqueles que não têm voz. Aprendemos, na prática, que uma ação vale mais que mil palavras.

Victor Bispo Zanata
14 de Janeiro de 2011, 1:22h.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Tristes corações

Pra sempre ou nunca mais? É difícil saber a melhor escolha a se fazer...
Mas eu tenho pressa. Assim como o sangue que corre em minhas veias,
Eu tenho pressa de chegar em um lugar onde eu possa finalmente respirar,
Bater a poeira e recomeçar: esquecer de tudo, e simplesmente recomeçar.

Sonho com este lugar todas as noite de minha vida.
Mas no fundo sei que ele existe apenas em sonho.
Que os contos de fadas desapareceram do mundo.
Que o mundo ficou mudo, triste, insensato, hostil...

Só sei que a cada dia já não sou mais o mesmo...
E que esta confusão se torna por  vezes insuportável.
Quando isso tudo vai acabar? Vos chamo para a luta
Tristes corações? Ou ficaremos assim, em prantos?

Completamente sós?

(Victor Zanata)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Untitled #11 - John Frusciante



Eis que no leito de morte, o incrível ex-guitarrista dos Red Hot's compõe esta fantástica canção de desespero. Salve John Frusciante: um vencedor de si mesmo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Das três metamorfoses



Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.
“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem carregado.
“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?
Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?
Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo?
Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?
Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?
Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?
Ou será isto: entrar na água suja, se for a água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?
Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”
Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.
Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.
Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.
Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.
“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”
Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim."
Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?
Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.
Conseguir o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.
Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.
Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?
Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.
Sim, meus irmãos, para o jogo da criança é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.
Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Assim falou Zaratustra. 
E achava-se nesse tempo, na cidade chamada "A Vaca Pintalgada". 

(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 43-45).

À Mariana

Quando a vi pela primeira vez
Percebi que havia algo errado
Não era ela, tua voz tão bela
Ou o primeiro abraço apertado

Era essa hesitação apaixonada
Como a volúpia de um sonhador
De demonstrar tudo que sentia
Sem que a vertigem virasse dor

Por certa data esteve ausente
E seu retorno me fez perceber
Por tanto tempo que se passou
Ainda há tempo de me envolver
                                         
Aceite estas simples palavras
Que sinceramente lhe ofereço
E saiba que do fundo do peito
Ainda lhe tenho forte apreço


Setembro, 2010.